segunda-feira, 30 de abril de 2012

Em Segunda Mão (2012) de Catarina Ruivo


Os problemas de "Em Segunda Mão" são muitos. Cinematograficamente falando, é um filme morno, com poucas ideias de cinema, não mais do que um ou dois planos assinaláveis (exemplo do contacto final por telemóvel que, aliás, deveria ter terminado o filme), talvez por assentar numa muito frágil narrativa thrillesca, que, em momento algum, cessa de condicionar todo o filme. Por assentar e ser totalizado pelo plot, "Em Segunda Mão" fica cativo de uma escrita para cinema mal burilada, ingénua e incoerente, que será, porventura, a origem para todo o desequilíbrio e desinspiração formais.

O protagonista é Jorge, interpretado por um já notoriamente debilitado Pedro Hestnes (viria a falecer pouco tempo depois da rodagem). O estado impressionante do seu rosto e do seu corpo não foi minimamente "assimilado" pela realizadora, o que provocou em mim, desde o início, a sensação de um mal-estar partilhado pelo actor relativamente à sua imagem, que, ao longo do filme, como que aparece  "desfasada" da personagem que incarna. De qualquer modo, este é apenas um pormenor numa história com mais buracos que um queijo suíço.

A história de um homem que ganha a vida a escrever romances eróticos sob o pseudónimo de Clarice B. (premissa que podia ter saído de um filme de Almodóvar, talvez) presta-se a várias incoerências, nomeadamente, no instante em que, depois de ter dito ao editor não ter dinheiro nem para uma lata de sardinhas, este se mostra disposto a adquirir um carro vermelho, de alta-cilindrada, à mulher por quem se apaixona, ou quando este arrenda a luxuosa casa envidraçada, com piscina, isolada na floresta, que fora abandonada - não se sabe bem por quê - pela sua amada. A situação miserável de Jorge é-nos dada logo nas primeiras imagens, captadas numa pensão rasca, onde este se terá isolado para... Na realidade, não percebemos - nem viremos a perceber - por que Jorge "fugiu" para local tão suspeito - porventura, apenas em busca da companhia de uma prostituta com quem, no entanto, nem chega a fazer sexo...Também não podemos perceber porque é que Jorge, depois de ter ouvido um tiro no quarto ao lado, reclama tanto com o dono da pensão quanto à urgência de chamar a ambulância ou a polícia, se pode perfeitamente fazer isso por si mesmo...

Outro elemento estranho, na realidade, o principal golpe à credibilidade de todo o filme - e, atenção, o filme procura-a em cada momento, como que auto-consciente de quão rebuscada é a sua narrativa aos farrapos - atinge o clímax no instante, a meu ver, ridículo, em que Jorge se lembra de perguntar à mulher como é que o seu marido desapareceu da sua vida. Esta pergunta parte de alguém que chegou ao contacto com aquela mulher movido precisamente pelo "mistério" em torno do paradeiro do seu marido; surge num momento em que Jorge já tem uma "vida" com essa mulher; depois de por ela ter abdicado da sua vida como "escritor", depois de por ela ter aceite ocupar o lugar (que estava vago) de novo "pai do seu filho"... 80% de filme já tinha passado e só agora Jorge, personagem, desde o primeiro minuto, assombrada pela presença/ausência daquele homem, resolve questionar a sua nova mulher sobre os contornos desse desaparecimento. Pior do que ter personagens ingénuas - que mordem os vários iscos que lhes são postos à frente sem pensar nas causas e consequências ou que deixam as perguntas decisivas para o fim - é tratar essas personagens de forma ingénua - e, por arrasto, achar que o espectador de cinema engolirá todo o tipo de incongruências.

Dou estes exemplos, mas podia dar mais. Exemplos de como "Em Segunda Mão" está sempre aos papéis com a sua história. Quando dela nos distanciamos um pouco, resta a química entre os dois protagonistas, que, para pior dos nossos males, é absolutamente inexistente. Aliás, o filme como que esconde mal que ela não está lá: a cena do primeiro encontro na praia, primeira abordagem de Jorge para conquistar aquela que será a sua futura mulher, é interrompida pelo acidente da criança, um "incidente narrativo" que perturba a necessária "solidão do casal", aquele espaço dramatúrgico que teria sido essencial para conseguirmos entrar (finalmente) no seu mundo e percebermos (ou não) as suas acções. Ora, este incidente, veremos, serve apenas para nos desviarmos desse mundo, para atabalhoada e injustificadamente nos desconcentrarmos desse amor "em formação" para nos concentrarmos, de novo, nas intenções (mais ou menos secretas) que propiciaram aquele encontro. Numa sucessão de raccords despropositados, passamos do passeio na praia para o hospital, logo a seguir, passamos de novo para a praia... Olhando para trás, pergunto-me qual o sentido da cena do meio (talvez abra a possibilidade de todo um filme composto por cenas em segunda mão, isto é, que não lhes pertence por inteiro... que estão sempre ali um pouco "a mais"...), faço perguntas semelhantes ao longo do resto do filme, perguntas muito básicas, muito irritantes, que perturbam sobremaneira o visionamento.

Infelizmente, penso que Catarina Ruivo não consegue alcançar o objectivo a que se propõe no catálogo do Indie, isto é, fazer um filme sobre "o desejo de ser outro" ou sobre a ilusão de que a felicidade está sempre no lado de lá. Não que a ideia não esteja lá, está, mas demasiado abafada pelo desnorte de cenas sem sentido ou ferida de morte pela falta de uma perspectiva estável, una, sobre o que nos dá a ver; sobre o que, de facto, importa mostrar e de que modo deverá ser mostrado.

(Este filme estreou hoje no IndieLisboa. Volta a ser exibido no dia 1 de Maio, às 21h30, no Cinema Londres. Reexibição que não conta com o nosso aval.)

1 comentário:

Sabrina D. Marques disse...

( E dizia-te eu acerca da motivação para ver esta sessão : "-Quero que ela me prove errada"... )

Mas na verdade, a este momento, desisto.
Vi-lhe as longas todas até agora e não vi nada em nenhuma...

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