segunda-feira, 29 de abril de 2013

Frances Ha (2013) de Noah Baumbach


Aqui está um gesto livre de cinema. Livre de quê? De tudo aquilo que, por norma, nos afasta das personagens e do seu mundo ou que, por sistema, procura afirmar uma marca autoral, de realizador, em detrimento da procura de uma justa medida, que é, como é sabido, a medida de todas as coisas, a medida, enfim, da nossa vida. "Frances Ha" é um trabalho de uma simplicidade desarmante, nesse aspecto: uma actriz, a belíssima Greta Gerwig, e o seu alter ego, a doce, desajeitada, clownesca Frances. A Nova Iorque a preto-e-branco de Baumbach, próxima de um Woody Allen, dá a atmosfera certa a este pedaço de slapstick contemporâneo, com todos os moods terrenos que nos temperam a vida. O mais belo no filme é a sua fluência e essa tal aragem de liberdade que encontramos no melhor cinema indie norte-americano.

O exemplo mais sublime de como Baumbach nos sabe oferecer, com a colaboração de uma actriz irresistível, esta visita deliciosa a uma vida aparentemente "sem história" é a sequência musical ao som de Bowie, onde vemos a bailarina Frances a correr dançando e a dançar correndo pelas ruas de Nova Iorque. Este momento lembra, obviamente, Denis Lavant em "Mauvais sang", mas a leveza de espírito e os "bons sentimentos" imperam neste filme ou não seria Frances a personagem mais happy-go-lucky (não, não estou a citar o insípido filme de Mike Leigh) que podíamos encontrar: sem lamento ou choros miúdos, Frances diz que está bem e é feliz, mesmo quando todo o mundo parece conspirar para tornar a sua vida "inconsertável" (o termo mais usado é "undatable", mas o que Frances precisa é de um outro arranjo cósmico, que faça jus à sua "boa onda" e saudável jovialidade).

Frances acaba por ser o lado b de Greenberg, personagem do filme anterior de Baumbach onde Greta Gerwig também entra, interpretando uma personagem não muito distante desta Frances. Em vez de optar pela reclusão e passar o tempo a "azedar" nas suas frustrações, Frances mexe-se, sai de casa, muda-se para outra casa, encontra-se com este amigo ou com aquele conhecido, visita a sua melhor amiga (a única verdadeira e autêntica história de amor em todo o filme) ou simplesmente baila e faz girar, num redemoinho airoso e alegre, tudo o que a rodeia.

("Frances Ha" foi exibido hoje, dia 28, na secção Observatório. Magnífico filme que, caras distribuidoras, mais do que merece ser mostrado ao grande público. JÁ!)

2 comentários:

Lívia R. disse...

Assisti ao filme e achei pura inspiração. A música de David Bowie ajudou a dar o tom alegre e despretensioso ao filme. Supreme.

Lívia R. disse...

Assisti ao filme e fiquei completamente inspirada pela pureza da linguagem cinematográfica que Frances Ha apresenta. Entre risinhos tímidos e desconcertantes, pelo próprio desarranjo que era a vida de Frances, fui submetida a sua alegria persistente, sem dramas: é até uma afronta com os pobres você se chamar de pobre. Vida adiante. Tombo constante. A "sustentável" leveza do ser.

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